Geraldo Leal, o dono do disco

quarta-feira, 4 de novembro de 2009
A orquestra maluca

É fácil se perder entre a visão e a audição no Shopping da Cidade. O caos que entra sem licença nos ouvidos e nos olhos dos transeuntes é para deixar qualquer um tonto. Aproveitando a fiscalização ruim, ou a ausência dela, algumas dezenas de vendedores montam  as armas para uma guerra em boxes metálicos de 1,50m². Guerra pelo consumidor, guerra pirata. Aparelhos de som e TVs com aparelhos de DVD são convertidos em canhões sônicos. De todos os lados, o bombardeio de músicas, clipes e shows em produtos ilegais celebra um espetáculo incessante.


O velho marinheiro
Mas se por todos os cantos os piratas são facilmente encontrados, um velho senhor guarda um tesouro perdido entre o mar de ofertas. O baú de Geraldo Leal, de 62 anos, guarda um valor que não é lá bem traduzido em ouro ou cifrões. Mas em aspectos culturais, é de certo raro e valioso. O senhor que se denomina saudosista – palavra que usa com prazer e afinco - vende vinis. E batalha silenciosamente na sobrevivência da tradição do disco e da vitrola.



O estande de Geraldo Leal localiza-se em um dos lugares mais infelizes de todo o Shopping da Cidade: segundo piso, em um corredor que tem como vista o dragão cinzento das obras inacabadas do metrô atravessando a Avenida Maranhão, que acumula sete anos de espera. Mas não é só a vista bloqueada para o Rio Parnaíba que incomoda. “Aqui faz sol a tarde toda. Você pode ver que não tem nenhuma outra barraca aberta, só a minha e a de uma menina lá na ponta (de um extenso corredor)”, “Seu” Geraldo fala apontando com o dedo.


Geraldo recebe os interessados em garimpar centenas de vinis organizados no chão e em prateleiras, com um pequeno tamborete cuidadosamente preparado com uma almofada. A ornamentação do minúsculo ambiente lembra a de um cômodo de casa. Porta-retratos são recheados com imagens recortadas da capa de discos repetidos. Enquanto o cliente passa os dedos pelos bolachões, é observado silenciosamente por imagens de ídolos musicais aleatórios: Roberto Carlos, rei do Iê Iê Iê, Luiz Gonzaga, rei do Baião, e Michael Jackson, rei do Pop.


Aos mais curiosos e atenciosos, um bônus vai além das compras dos discos: Geraldo Leal é um perito contador de histórias. Todas as lembranças de um passado de mil contos são sempre introduzidas com a fala “No meu tempo as coisas não eram assim”. O convite para ouvi-las? Uma simples pergunta despretensiosa. No caso deste repórter, a trilha inicial foram as fotos antiqüíssimas de times de futebol. 



“Tá aqui ó, o finado Mané Garrincha com o Carlos Said, Magro de Aço. Aqui é o Botafogo do Rio, mas em outros tempos tinha Botafogo do Piauí também. Era bom demais o futebol daqui. Hoje em dia é ruim pra ir. Fui outra vez pro Lindolfo Monteiro, mas roubaram meu rádio. E se não fosse meu filho me socorrendo, eu tinha levado uma taca” - afirma agitado “Seu Geraldo”, que faz questão de completar: “Mas eu sou riverino. Aqui tem fotos de outros times, mas é só pra lembrar”.


Notas do passado pessoal
Após breve passeio pelo mundo da bola, Seu Geraldo atravessa os mais variados assuntos. Dos bons costumes (“No meu tempo namorar era só em porta de casa e com pai da moça batendo na janela quando dava 10 da noite”), passando pelas mudanças da cidade (“No meu tempo a energia da cidade era a carvão. Três sirenes apitavam na noite, pra avisar que a luz ia ser desligada. Se estivesse na rua, tinha que correr pra não ficar no escuro”), até chegar nas lembranças mais íntimas, a família.


Ele abre a longa carteira de couro e retira uma foto. Sua mãe. Olha por uns tempos e lembra a beleza da jovem senhora fotografada, como um escravo da nostalgia. Para por outros instantes. Repousa a imagem sobre o colo do repórter enquanto procura outra foto, mas antes acha papéis em branco e azul. São seis cartões de uma funerária, da qual declara ser cliente há um tempo. “Eu tenho até meu irmão como dependente. Porque se aí tiver algum imprevisto, não tem problema”, diz Geraldo, com naturalidade.



Enfim acha a segunda foto, seu pai. A similaridade entre o senhor do papel e o que fala é impressionante. Dividem características físicas e gostos. “Eu comecei a ouvir vinil com meu pai” – e segue a citar as preferências do tutor – “Escutava Nelson Gonçalves, Ataulfo Dias, Aldemar Dutra...”, a lista extensa continua. Decidiu então elevar o gosto por tradição em uma fonte de renda alternativa. Mas motivado por outro porém, esse longe de escolha.



“Um tempo atrás eu tive um problema na minha gengiva que causou uma pequena dificuldade de fala. Um médico no HTI disse que era um problema nas minhas amígdalas. Aí receitou uma medicação e disse que ia ficar bom. Só depois, quando um primo médico me analisou com cuidado, descobriu que na verdade eu tinha câncer”, relata Seu Geraldo.


Depois de intenso tratamento com radioterapia, ficou curado. Por recomendação médica, procurava uma atividade que lhe exercitasse a capacidade de comunicação. Assim, entrou o gosto que era apenas hobby. Evoluiu, cresceu e hoje interessa por suas proporções. “Tenho entre seis e sete mil vinis à venda”. Como organizar acervo tão grande? “É difícil, mas estou fazendo um inventário para quando o cliente perguntar sobre um título, eu saber a reposta”, conclui.


Tesouros do presente
Curioso observar que o saudosismo que permeia Geraldo Leal e seus interesses não é tão refletido no seu público. “Hoje em dia a molecada está tomando de conta dos vinis. Eu vendo principalmente disco de rock”. Ao ser questionado sobre o vinil mais caro de sua coleção retruca de imediato: “Aqui não tem vinil caro. O mais barato custa dois reais, e o mais alto custa dez”.  Quando a pergunta é sobre raridade: “Eu tenho Beatles, Elvis, Elton John...” e prossegue.




Por fim, fica a certeza de que presença em sua barraca e o prazer de cavar peças lendárias frente à infinidade de discos disponíveis são apenas alguns dos atrativos para os colecionadores. Aos amantes do chiado de agulha de vitrola, fica o convite para ouvir relatos de outros tempos, feitos por Geraldo Leal. Porque, de saudosista para saudosista, momentos históricos de um passado soam tão bem quanto as músicas que escapam das linhas de um vinil. 


Texto e Fotos: Igor Prado
(igorprado1@hotmail.com)

5 comentários:

Georgiana disse...

Bom saber que vale a pena ir ali pra algo.

:)

Fernando "Vinhedo" disse...

Igor, gostei muito da matéria. Só senti falta de vc nos contar o que o personagem fazia antes de vender vinis. Talvez algumas coisinhas como quais bandas são mais requisitadas pelo público. Seria viagem demais perguntar o que ele acha de donwlodas de mp3? aajhahuauhuhaaa

Enfim, preciosidade, gostei muito da reportagem!

cara.jimbo disse...

Já comprei um Vinil desse cara, hahahah

Igor Prado disse...

Boa, Vinhedo!

A resposta pra primeira pergunta eu não sei responder. Valeu a dica!

Sobre as preferências do público, a resposta tem lá seu tom cômico porque foi geral: "Rock".

Sobre mp3, Seu Geraldo não opinou. Mas sobre computadores, sim: "Apesar d'eu ter dois lá em casa, não uso nenhum. Não gosto de computador não."

hahahaha

Obrigado ao pessoal pelos comentários!

Braga disse...

Pessoas assim são fascinantes de conversar. Eu que ainda não tinha ido nesse shopping, darei uma pescoçada marota pra ver esses vinis.
Boa matéria, amico!!