A nova igreja velha

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Onde acaba a tradição e começa a novidade? Apolo News pergunta aos fiéis católicos, opiniões sobre a cara de sua Igreja.


Na tarde da última segunda-feira (12), a Avenida Marechal Castelo Branco foi convertida em um grande corredor. Escoando por ela, das proximidades da Assembléia Legislativa até ponte da Primavera, aproximadamente duas mil pessoas. Um trio elétrico comandado por entusiasmado homem e banda completa, guiava os presentes, convidando-os a cantar e levantar os braços. Micareta? Não.


O motivo que levou as pessoas às ruas foi a “Festa da Mãe de Deus”, procissão realizada por representantes da Arquidiocese de Teresina, que em seu terceiro ano caracteriza mais um exemplo tático da Igreja Católica em promover ações fora dos altares para conseguir mais seguidores – e manter os que tem.


A Igreja Apostólica Romana está longe de uma crise. No Brasil, ainda é com larga vantagem a representante da principal religião. Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha em 2007, 64% dos brasileiros se declaram católicos. No ano véspera de realização de um novo levantamento nacional, o censo 2000 ainda é razoável ao apontar: No mínimo 130 milhões de pessoas no país são católicas.


Mas frente aos números satisfatórios para a instituição existem obstáculos. Por um lado, o crescimento de outras igrejas cristãs, e o número de pessoas que se declaram não pertencentes a qualquer religião. Por outro lado, a faixa etária elevada dos fiéis e a dificuldade dos católicos em renovarem seu público – que levou a várias correntes dentro da própria igreja a criarem formas de deixarem a mensagem mais acessível, que por sua vez, gera dissidências internas. Quebrar o protocolo ou não? A igreja católica, afinal, se renova? O Apolo News foi às ruas para descobrir o que o fiel tem a dizer.


Novos espíritos
 

Boa parte das pessoas que chegavam a pé na Avenida Marechal Castelo Branco no dia em que foi realizado a “III Festa da Mãe de Deus”, foram recepcionadas com folhetos dos cânticos sacros, entregues pelas pequenas e engraçadas figuras em trajes de campanha. A União dos Escoteiros do Brasil (UEB), atendendo pedido da Arquidiocese de Teresina, destacou seus integrantes para auxiliar no trabalho de contenção e orientação de público no evento.

Com disposição que ultrapassava a imagem de quem estava ali por obrigação, Samya Moreira e Anderson Gonçalves, ambos de 12 anos, entregavam os papéis freneticamente. Possivelmente, a primeira pausa da tarde foi para responder as perguntas. “Qual a missão de vocês hoje?”. Samya estufa o peito, deixa a cabeça ereta e responde com disciplina de quem decorou, e muito bem, um texto: “Nós estamos fazendo uma corrente para ninguém acompanhar o santo”.

A segunda pergunta sai fácil, abusando dos clichês. “Por que é importante estar em evento da igreja?”. Samya, uma vez mais e prontamente: “Porque aqui não aprendemos coisas erradas”.  Uma visita com os olhos ao redor: O público, em sua maioria, senhoras. Carregam imagens, sacolas com terços, santinhos às mãos. Nenhuma criança de 12 anos sem farda de escoteiro pelas redondezas. Aos dois, a terceira pergunta: “Por que vocês acham que não tem muitas pessoas das suas idades aqui?”.


Silêncio momentâneo. Samya e Anderson se entreolham. E depois de balbuciarem uma resposta, Anderson deixa escapar a frase: “Porque na maioria das vezes as crianças são forçadas a vir, e isso pode soar como uma obrigação”. Bingo.

O próximo questionamento foi ao escoteiro chefe de Samya e Anderson, Emanuel Barbos de 22 anos. A serventia e sucesso de grandes eventos realizados pela igreja é a pauta. “Eventos feitos para o grande público levam a participação geral. Atividades atrativas são essenciais”, afirma antes de caminhar em fila com os pequenos, para a proteção da imagem de Nossa Senhora.

A voz da experiência

Dona Maria de Lourdes Queiroz, conhecida como Dona Estrela, assiste a missa que o Padre Tony Batista comanda em alambrado montado ao lado da Assembléia Legislativa. Em meio ao sermão em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, Padre Tony, familiarizado ao microfone e às grandes celebrações, foge do usual e conclama à multidão presente: “Basta que mexamos o dedinho mindinho para que Nossa Senhora saiba o que pensamos”. Duas mil pessoas repetem o gesto do Padre. Uma delas, Dona Estrela.

Aos 87 anos, Dona Estrela esbanja sobriedade. Em sua história de igreja, atravessou oito diferentes papados. De São Pio X à Bento XVI, a vivência em diferentes nuances da forma com que a religião católica é assimilada pelos fiéis. Respondeu a algumas perguntas enquanto acompanhava sentada o sermão do Padre Tony.

O que leva hoje os novos fiéis a entrarem na Igreja Católica?

“O medo de morrer.”

Qual sua opinião sobre o número crescente de pessoas que se declaram sem religião?

“Eles consideram a religião como sendo algo só para eles. Egoísmo fala mais alto, meu filho.”


É interessante para a Igreja Católica apoiar práticas de disseminação da palavra que fogem ao lar ou à igreja? Como shows, produção artística, ou eventos abertos como esse.

“É muito importante. Você veja, de vez em quando um pessoal de outra igreja vai em minha porta, querendo conversar, mostrar uns textos. Eu não atendo, mas isso mostra que eles estão sendo mais populares”.

O regulamento e o popular.

A reportagem conversou com dois padres da Paróquia São José Operário, localizado na Vila Operária, em Teresina. Pe. Pedro Cahir e Pe. Oleriano Barbosa. Ambos os padres responderam ao questionamento da validade de uma das novas práticas de celebração e transmissão dos preceitos católicos. Quando aliado ao altar vem o microfone, a música e o show. Guiados não por fiéis, mas por próprios membros da igreja. Missas televisionadas, ou celebradas em grandes estádios.

Pe. Pedro Cahir responde. “É válido. Desde que a luz que nos guie seja Cristo. Sua vida, seu testemunho e sua prática”. Já Pe. Oleriano é mais específico. “A Igreja deve usar os meios de comunicação e as novas práticas.” Pedimos que ele comente, por exemplo, as atividades do movimento Renovação Carismática, que desconstrói a imagem sóbria da celebração ecumênica incluindo no repertório sagrado, incluindo canto e um grau de efusão ao ritual.

 
Pe. Pedro responde utilizando sem saber, quase repetindo a sentença de Pe. Pedro Cahir: “É valido” – concluindo um tom moderado e catedrático, “Desde que siga todas as normas litúrgicas”. 

Como religião hegemônica na América Latina, e agregando mais de 1 bilhão de fiéis pelo mundo, o catolicismo segue. As tradições permanecem como pilares. Mas o fator progressista caracteriza a principal dúvida: De onde vem? De dentro da igreja como instituição, ou de fora?


Confira um pouco mais sobre a "III Festa da Mãe de Deus" com nosso blog parceiro, Volver.
Na sequência, confira o ensaio fotográfico do Apolo News sobre o evento.




Texto: Igor Prado
Fotos: Juscelino Ribeiro
(igorprado1@hotmail.com / juscelinoribeirojr@hotmail.com)

1 comentários:

thiagopierrot.alves disse...

Não é novidade o papel que as manifestações midiáticas exercem no que diz respeito à influência sobre a vida cotidiana.A adoção que a Igreja Católica faz dessas ferramentas nada mais é do que uma tentativa de sobrevivência em um mundo cada vez mais plural, onde as opções de escolha no que diz respeito a questões como identificação e agregação a determinados nichos são infinitamene maiores do que num passado não tão distante. Ou ela se utiliza dessas artimanhas, ou perde público para outras religiões "mais antenadas".
Muito legal a reportagem. Deu para ter uma impressão ampla do panorama e das estratégias atuais utilizadas pela Igreja Católica na tentativa de manutenção de sua hegemonia como maior religião brasiliera.